Quem está ausente no álbum de família?

POEMA: ÁLBUM DE FAMÍLIA.

Parte 1. Retratos ou fotografias.

Quem está ausente no álbum de família?

Tanto tempo que não vejo.

Meses, anos?

Na vida moderna tão cheia de novidades,

Já não se usa o álbum de família.

O álbum de família hoje está em todos os lugares,

Menos na sala de visita.

album de familia
Imagem: Pixabay

 

Mas limpando a sala,

Por que tive que olhar para o álbum,

Tão esquecido na sala de visita?

 

Álbum é coisa minúscula.

O que importa na vida é coisa graúda.

Por que o álbum de família,

Que vejo na estante esquecida,

Virou uma coisa bem graúda,

Para olhos tão seletivos?

 

Porque de lá saiu uma rã,

Tão pequena que não canso de lembrar.

Como a rã saiu de um álbum,

Agora não sei onde está.

 

Quando uma rã sai de um álbum,

Está, na verdade, resgatando o passado.

Revirar o passado tem seu valor,

Se for para reparar o bem.

 

Por que lembrar o passado,

Se o presente está indo tão bem?

Remoer o passado vira remédio,

Se o ser quer mostrar alguém.

Parte 2. Retratos ou fotografias.

No álbum de família que folheio,

As inesquecíveis fotos de meus pais.

As crianças brincando no quintal.

Eu, porém, na barriga de minha mãe.

 

Eu estava lá,

Sob a pele charmosa de minha mãe.

Contudo, cadê os outros personagens,

Esconderam-se por causa da falta de coragem? 

 

Trata-se dos trabalhadores invisíveis,

Que criaram o ser,

Que vê estas fotos.

Onde está o espermatozoide vencedor da corrida?

Onde está o óvulo fecundado,

Que seguiu caminho triunfal para o útero de minha mãe?

 

O álbum não vai mostrar a invisibilidade.

Os seres invisíveis originam as visíveis.

Por isso que eles estavam lá,

Escondidos sob a pele de minha mãe.

 

Estavam trabalhando para esculpir o ser.

Mas eram para estar no álbum de família,

Que teria o ser do passado e o ser do presente.

Quem iria querer o espermatozoide?

Quem gostaria de ver o óvulo?

 

Todos nascem do assombroso.

Eu, meus pais, meus irmãos,

As mulheres, os homens, as crianças,

Os fisiculturistas, os modelos,

Presidentes, rainhas e princesas.

Todos nascem do assombroso,

Para dirigir o mundo.

Se nada não nascer do assombroso,

Não será deste mundo.

 

Quem está ausente no álbum de família. Poema de Bomani Flávio. 

 

Brasília, DF, Brasil, em 22 de agosto de 2018.

 

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